História do Vitor

Meu nome é Fernanda, mãe do Vítor. Sou psicóloga, doula e completamente apaixonada pela maternidade, além disso, me descobri cozinheira, expert em adaptar e criar receitas sem leite, soja e ovos.

Vítor hoje tem 2 anos e 7 meses, foi um bebê muito esperado e amado, nasceu de uma cesária intra-parto com 37 semanas e 5 dias, após 24 horas inesquecíveis de trabalho de parto. Mamou logo após ter nascido, ainda no bloco cirúrgico.

No segundo dia de vida começou apresentar certa recusa em mamar e um choro constante, sua barriga fazia “barulhos”, entretanto apesar de uma hiplogicemia com 3 dias de vida, icterícia, e mastite nos 2 seios seguimos firme e forte com a amamentação até hoje.

Meu pequeno quase não conseguia dormir, mas eu achava normal, afinal todos sempre falaram que bebês choram muito e não tem uma rotina bem estabelecida, porém com cerca de 10 dias, começou a apresentar irritabilidade e choro intenso após as mamadas, além de engasgos que me acordavam muito assustada a noite, falei com a pediatra que dizia ser normal. Após uma consulta com a mesma, ela ouviu o choro de Vítor e me disse: “esse choro é de dor, ele deve estar com refluxo”. Medicado, Vi dormiu 5 horas seguidas na primeira noite, mas em dias tudo estava exatamente do mesmo jeito que antes da medicação.

Com 1 mês e 20 dias ao trocar meu filho fiquei assustada, o coco que sempre foi algo que me chamou a atenção, pois era espumoso, esverdeado e completamente absorvido pela fralda, naquele dia tinha outra característica, algo “liguento” como um catarro, em grande quantidade, pouco tempo depois descobri que aquilo era muco, o qual nos acompanhou diariamente até o 6º. Mês e intermitentemente até por volta de 1 ano, e em toda reação. O choro, a cólica e o refluxo só pioravam, dermatites por toda pele, espirros e mais espirros, chiado no peito, nariz sempre trancado, ao redor dos olhos sempre vermelho e inchado, ganho de peso insuficiente, 15 a 20 trocas de fralda por dia, recheadas de diarreia e muco e sempre a mesma frase da pediatra “é normal”. Não conseguia acreditar que aquilo pudesse ser normal, então eu mesma comecei a pesquisar, procurei em artigos, blogs, grupos de mães nas redes sociais e comecei a desconfiar de APLV. Então questionei a pediatra sobre isso, mas a resposta foi que as proteínas que passavam para meu leite eram mínimas e não seriam suficientes para causar alergia.

Não conseguia acreditar que tudo aquilo pudesse ser normal, então fui em busca de uma segunda opinião, uma gastropediatra que suspeitou de APLV, mas disse que eu poderia esperar antes de fazer dieta, pois desconfiava que todos esses sintomas poderiam ser uma espécie de reação aos medicamentos do refluxo. Não era o que meu coração dizia, mas acho que eu tinha medo de assumir que ele poderia ter alguma restrição, medo do desconhecido, medo por não estar no controle, medo…

No dia que Vítor completou 3 meses ao trocá-lo fui surpreendida com o temido sangue vivo nas fezes, seguido de um inchaço na sua barriguinha e 20 trocas de fralda, todas com sangue. Liguei para a pediatra que imediatamente pediu para eu cortar tudo de leite, derivados e soja. Confesso que foi um choque, demorei a aceitar, fiquei imaginando como seria não poder comer brigadeiro com meu filho, como faria as coisas sem leite, como seria dali pra frente… Passado o susto, iniciei a dieta, ainda sem saber bem como fazer, pois não fui orientada em relação a traços. Continuei comendo industrializados e não separando louças, esponja, pano de prato… Mesmo assim já sentimos melhora, principalmente no sono, porém logo depois ele já apresentava os mesmo sintomas novamente.

Encontrei um grupo de mães de bebês alérgicos no Orkut e lá fui orientada sobre traços, apresentada a receitas “limpas”, apoiada e aos poucos ajustando a dieta. Como Vítor não melhorava, principalmente o sangue e o muco, tirei da minha dieta (porque o amamentava) leite, soja, ovos, carne vermelha, peixe, cacau, oleaginosas, leguminosas, tomate, banana, frutas cítricas, coco, milho (lembrando que casos como do Vìtor não são tão comuns, ele realmente estava muito sensibilizado e reagia a praticamente tudo). Sentimos uma boa melhora no sono, refluxo, humor, mas continuava com lesões na pele (dermatite) que chegavam a sangrar, muitos espirros e diarreia com muco e sangue cerca de 15 trocas por dia. Passei por alergistas, gastros, pediatras indicados por amigos… Mas todos pareciam não entender nada de APLV. Então quando Vi estava com 4 meses conheci o Dr. Magno, um anjo nas nossas vidas, que nos acolheu e ouviu atentamente, depois da consulta resolvemos sob orientação dele e levando em conta meu profundo desejo de continuar amamentando, retirar o trigo também da minha dieta. Bingo, de 15 trocas reduzimos para 6 e as dermatites sumiram, mas o muco e o sangue nos aterrorizaram quase que diariamente até o 6º. Mês.

O que mais ouço quando conto da dieta nesse tempo é: Mas e o que você comia? E respondo, inventava moda, pães, tortas, panquecas e bolos com farinha de arroz, frutas, saladas, frango de todas as maneiras possíveis, pão de queijo sem queijo… Inacreditável a força que encontramos quando o assunto é filhos! E você deve estar pensado, ah mas ela deveria ter ajuda de toda família, além de empregada e cozinheira… Não, minha família é do Sul, em BH moram só eu, meu marido e meu filho. Tinha uma moça que me ajudava 2 ou 3 vezes na semana com a casa, mas a cozinha e os cuidados com meu filho, eram por minha conta, esperava meu marido chegar do trabalho e mãos a obra! Simplesmente não pensava, sabia que estava fazendo o melhor que podia pelo meu filho. Foi fácil? Não, foi difícil! Tive vontade de comer o que não podia muitas vezes, chorei outras tantas, me questionei, mas em momento nenhum isso foi um fardo, preferi pensar que era uma missão!

Com 6 meses iniciamos a introdução alimentar para Vítor que foi lenta e muito gradual, pois descobrimos que ele fazia parte dos 30% e era alérgico múltiplo, reagia via leite materno a muitas coisas e quando iniciou as papas, reagiu a várias verduras e quase todas as frutas, mesmo cozidas. A cada introdução, eram noites em claro, pois ele acordava a cada 20 ou 30 minutos se retorcendo de dor.

Seguimos pacientemente, vivendo um dia de cada vez, vencendo cada etapa. Reintroduzi com sucesso em minha dieta depois de 4 meses o trigo, depois de 6 meses o cacau, depois de 1 ano o feijão, depois de 1 ano e 3 meses a carne… E meu pequeno grande guerreiro também foi vencendo, alimento após alimento.

Hoje faz dieta de leite, soja, ovos, milho, oleaginosas e algumas frutas e verduras que ainda não testei, mas está estabilizado a muito tempo. Com 1 ano e 11 meses nos livramos das cólicas, e ele passou a dormir a noite inteira tranquilamente, faz mais de 1 ano que não sabemos o que é muco ou sangue nas fezes. Vítor ainda mama no peito, e eu faço dieta de ovo, milho e oleaginosas. Sim há pouco mais de um mês reintroduzi leite e 20 dias depois soja em minha dieta, com nenhuma reação no Vítor.

A alergia “bagunçou” nossa vida, trouxe provas que pensei que não venceria, mas também um aprendizado e um desejo de ajudar outras pessoas que passam pelo mesmo! Creio que nada, nada é por acaso e hoje, mesmo com tantas provas que passamos só tenho a agradecer a Deus por ter nos permitido passar por isso e nos sustentado nessa caminhada. Sigo cozinhando sem leite aqui em casa, ele não faz falta, sinto uma alegria imensa por poder adaptar a alimentação do meu pequeno e oferecer a ele qualidade de vida, mesmo com as restrições. Não sei quanto tempo mais com alergia temos pela frente, mas isso também não é o mais importante, se tem uma lição valiosa que a alergia nos trouxe foi viver um dia de cada vez!

4 thoughts on “História do Vitor

  1. 1

    Que bacana seu relato. Exemplo de superação e dedicação!

  2. viviane de lima
    3

    parabéns pela sua força e persistência,continue sempre lutando pois quem luta vence e você já venceu muitas batalhas,que deus abençoe você e toda sua famìlia.

  3. 4

    Lendo o seu relato lembrei tudo que meu filho passou. Foi uma situação quase idêntica. É lamentável como os médicos ficam perdidos para diagnosticar a alergia alimentar, principalmente a múltipla. E muitas das vezes ainda a agravam com prescrições erradas, como no caso do meu filho em que o médico prescreveu leite de soja para ele com apenas 15 dias de vida, alegou que eu nunca o conseguiria amamentar e depois quando consegui, alegou que o leite e traços que eu comia não faziam mal ao meu filho, mesmos com todos os sintomas nítidos de uma alergia.
    Mas, para os que sofrem com essa experiência e buscam médicos que possam orientar: aí vão os nomes dos anjos da terra do meu filho: Dr. Dr. Arnaldo Aponchick (pediatra – Guarulhos), Dra. Camila Komatsu (nutricionista funcional São Carlos e Batatais) e Elisabeth Negrete (São Carlos), Dr. Adriano Dell Vale (clínico geral – São Carlos), .
    Para meu filho, a primeira visita a uma nutricionista funcional foi o início da vida com saúde, inclusive para mim que descobri que ser alérgica também há algumas coisas. Pena que essa primeira visita apenas ocorreu quando ele já estava com 2 anos e 4 meses. Mas, valeu muito.
    Hoje, não temo ter um segundo filho alérgico. Tudo já ficou simples e fácil que muitas vezes agradeço a Deus a oportunidade de proporcionar imensa qualidade de vida para meu filho que aprendeu a comer quase todas verduras e legumes, não gosta de nada com excesso de sal ou açúcar, resultado de um paladar puro, sem os prejuízos de uma alimentação repleta de industrializados.
    Também aprendi que devemos seguir nosso instinto materno e quando os médicos falarem “isso é normal”, se nosso coração não concorda, devemos procurar uma segunda opinião urgente. Infelizmente, por falta de conhecimento, meu filho amargou quase dois anos e meio de corticoide (um veneno), quando a solução era simples, bastava retirar os leite, soja, ovo, laranja, abacaxi e glúten de sua alimentação, inclusive os traços.
    Meu menino teve vômitos, diarreias, assaduras terríveis, sangue nas fezes, bronquite, asma, 5 pneumonias seguidas, dores de ouvido constantes, baixo crescimento e ganho de peso, irritabilidade, fraqueza, ínguas…. Cada sintoma persistiu por um tempo e depois agravava para outro pior. Era como se o organismo pedisse socorro antes de entrar em uma fase pior.
    Hoje em dia, meu filho está com 5 anos e meio e possui saúde, alegria, crescimento, deixou de tomar antibióticos a cada 15 dias e está começando a melhorar a reação a traços.
    O próximo filho, caso tenha qualquer alergia, provável que fique bom bem rapidinho, pois quanto mais cedo o diagnóstico, menos lesões no intestino e sensibilizações.
    Para as mães que receberam o diagnóstico recente, não se desesperem, a internet é uma grande aliada. Através dela descobrimos diversas receitas e muitas vezes até nos surpreendemos como é possível fazer coisas tão maravilhosas, substituições incríveis…

    Ex de substituições:
    farinha de trigo: uma mistura de 3 KG de farinha de arroz, 1 KG de fécula de batata e 1 KG de fécula de mandioca, resulta em uma consistência semelhante;
    ovo: farinha de linhaça, vinagre (quando ovo tinha a função de liga na receita);
    leite: bebida ou leite de arroz, leite de amêndoas, leite de coco (leite vegetal)
    brigadeiros: pode utilizar mandioca cozida na massa para dar consistência;
    outra dica para quem alergias múltiplas: pesquise receitas veganas (vegetarianas) .

    Atenção: sem lactose é diferente de sem leite. A lactose é o açúcar do leite e causa intolerância. Já a proteína, é que causa a alergia e o leite possui mais de 20 proteínas diferentes. Então, ler o rótulo é importante, pois, por exemplo, caseína é uma proteína do leite.

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